28 de jun de 2012

Jesus, lembra de mim quando vieres com teu Reino!

Dar a Cristo o título de Rei pode ser perigoso. É um título ambíguo, que pode ser compreendido de modo mundano: pensa-se nos reis e grandes do mundo e, ato contínuo, atribui-se a Jesus as prerrogativas desses. Então, em sendo assim, nosso Salvador não passaria de um rei mundano, pagão: o que cura, o que resolve todos os problemas, o que arranja emprego, o que impõe sua vontade arbitrariamente... Mas isso ele refutou peremptoriamente:

“O diabo, levando-o para mais alto, mostrou-lhe num instante todos os reinos da terra e disse-lhe: ‘Eu te darei todo este poder com a glória destes reinos, porque ela me foi entregue e eu a dou a quem eu quiser. por isso, se te prostrares diante de mim, toda ela será tua’. Replicou-lhe Jesus: ‘Está escrito: Adorarás ao Senhor teu Deus, e só a ele prestarás culto’” (Lc 4,5-8).


“Vendo o sinal que ele fizera, aqueles homens exclamavam: ‘Esse é, verdadeiramente, o profeta que deve vir ao mundo!’ Jesus, porém. sabendo que viriam buscá-lo para fazê-lo rei, refugiou-se de novo, sozinho, na montanha” (Jo 6,14-15).


“Chamando-os, Jesus lhes disse: ‘Sabeis que aqueles que vemos governar as nações as dominam, e os seus grandes as tiranizam. Entre vós não será assim: ao contrário, aquele que dentre vós quiser ser grande, seja o vosso servidor, e aquele que quiser ser o primeiro dentre vós, seja o servo de todos. Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos’” (Mc 10,42-45).


Jesus não aceita um reinado nos moldes do sucesso, da força, de uma glória mostrada como auto-afirmação. O título de Rei, ele somente o aceita num contexto bem diverso e escandaloso:

1. Entrando em Jerusalém como Messias pobre e humilde, para sofrer a paixão, montado num burrico usado pelos servos, ele escuta o povo aclamá-lo Rei descendente de Davi e aceita o título:

“Isso aconteceu para se cumprir o que foi dito pelo profeta:
‘Dizei à Filha de Sião: Eis que o teu rei vem a ti, manso e montado em um jumento, em um jumentinho, filho de uma jumenta’. Os discípulos foram e fizeram como Jesus lhes ordenara: trouxeram jumenta e o jumentinho e puseram sobre eles as suas vestes. E ele sentou-se em cima. A numerosa multidão estendeu suas vestes pelo caminho, enquanto outros cortavam ramos das árvores e os espalhavam pelo caminho. A multidão que o precediam e os que o seguiam gritavam: ‘Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana no mais alto dos céus!’ E, entrando em Jerusalém, a cidade toda agitou-se e dizia: ‘Quem é este?’ A isso as muItidões respondiam: ‘Este é o profeta Jesus, o de Nazaré da Galiléia’. Os chefes dos sacerdotes e os escribas, vendo os prodígios que fizera e as crianças que exclamavam no Templo ‘Hosana ao Filho de Davi!’, ficaram indignados e lhe disseram: ‘Estás ouvindo o que estão a dizer?’ Jesus respondeu: ‘Sim. Nunca lestes que: Da boca dos pequeninos e das criancinhas de peito preparaste um louvor para ti?’” (Mt 21,4-11.15-16).


2. Diante de Pilatos, já estando preso e humilhado, ele confirma ser Rei de um Reino diverso dos deste mundo:

“Respondeu Pilatos: ‘Sou por acaso, judeu? Teu povo e os chefes dos sacerdotes entregaram-te a mim. Que fizeste?’ Jesus respondeu: ‘Meu reino não é deste mundo. Se meu reino fosse deste mundo, meus súditos teriam combatido para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas meu reino não é daqui’. Pilatos lhe disse: ‘Então, tu és rei?’ Respondeu Jesus: ‘Tu o dize eu sou rei. Para isso nasci e para isto vim ao mundo: para dar testemunho da verdade. Quem é da verdade escuta a minha voz’” (Jo 18,35-37).
 

3. Na cruz, como um trono, tendo sido coroado de espinhos, ele confirma ao ladrão ser Rei:

“E havia uma inscrição acima dele: ‘Este é o Rei dos judeus’.
Um dos malfeitores suspensos à cruz o insultava, dizendo: ‘Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós’. Mas o outro, tomando a palavra, o repreendia: ‘Nem sequer temes a Deus, estando na mesma condenação? Quanto a nós, é de justiça; estamos pagando por nossos atos; mas ele não fez nenhum mal’. E acrescentou: ‘Jesus, lembra-te de mim, quando vieres com teu reino’. Ele respondeu: ‘Em verdade, eu te digo, hoje estarás comigo no Paraíso’” (Lc 23,38-43).


Eis! É somente a partir da cruz que o reinado de Cristo aparece de modo claro! Pedem que ele mostre ser rei descendo da cruz; ao invés, ele demonstra ser rei não descendo, mas, totalmente senhor de si, totalmente obediente ao Pai, entregando-se até o fim pelos seus! Jesus reina dando a vida, Jesus reina amando, Jesus reina servindo! Porque deu a vida por todos é Rei de todos; porque foi obediente ao Pai até a morte, o Pai o glorificou como Senhor de tudo! Porque foi por nós imolado, é Rei de todos nós:

“‘Digno és tu de receber o livro e de abrir seus selos, pois foste imolado e, por teu sangue, resgataste para Deus homens de toda tribo, língua, povo e nação. Deles fizeste, para nosso Deus, uma Realeza e Sacerdotes, e eles reinarão sobre a terra’. Em minha visão ouvi ainda o clamor de uma multidão de anjos que circundavam o trono, os Seres vivos e os Arciãos - seu número era de milhões de milhões e milhares de milhares - proclamando, em alta voz: ‘Digno é o Cordeiro imolado de receber o poder, a riqueza, a sabedoria, a força, a honra, a glória e o louvor’. E ouvi toda criatura no céu, na terra, sob a terra, no mar, e todos os seres que neles vivem, proclamarem: ‘Àquele que está sentado no trono e ao Cordeiro pertencem o louvor, a honra, a glória e o domínio pelos séculos dos séculos!’ Os quatro Seres vivos diziam: ‘Amém!; e os Anciãos se prostraram e adoraram” (Ap 5,9-14)


Na sua Igreja, reinar deve ser servir e quem quiser ser o maior deve ser como aquele que serve!

É verdade que, no final dos tempos, o Reino de Cristo aparecerá de modo claro e glorioso, dando o sentido último ao cosmo e à história. Mas, até lá, ele aparecerá sempre humilde, pequeno, frágil... E a Igreja, que o deve revelar, deve estar sempre consciente de ser chamada a ser Igreja serva, Igreja pobre, Igreja peregrina, que coloca sua confiança somente no Senhor.

Peçamos a graça da conversão, para compreendermos a lógica do Cristo! Como o Ladrão, supliquemos: "Lembra-te de mim, Senhor, quando vieres no teu Reino!"

Dom Henrique Soares da Costa