31 de mai de 2012

“A castidade é a menos popular das virtudes cristãs” (C. S. Lewis)



(Este post é uma livre adaptação de um texto do escritor C.S. Lewis)


A castidade é a menos popular das virtudes cristãs. Porém, não existe escapatória. A regra cristã é clara: ou o casamento, com fidelidade completa, ou a abstinência total. Isso é tão difícil de aceitar, e tão contrário a nossos instintos, que das duas, uma: ou o cristianismo está errado ou o nosso instinto sexual se encontra deturpado. E claro que, sendo cristão, penso que foi o instinto que se deturpou.
Muitos dizem por aí que o cristianismo julga o sexo, o corpo e o prazer como coisas más em si. Mas estão errados. O cristianismo é praticamente a única entre as grandes religiões que aprova por completo o corpo – que acredita que a matéria é uma coisa boa, que o próprio Deus tomou a forma humana e que um novo tipo de corpo nos será dado no Paraíso (após a Segunda Vinda de Cristo) e será parte essencial da nossa felicidade, beleza e energia. O cristianismo exaltou o casamento mais que qualquer outra religião; e quase todos os grandes poemas de amor foram compostos por cristãos.
Porém, devido ao pecado original, herdamos organismos que, sob esse aspecto, são pervertidos; e crescemos cercados de propaganda a favor da libertinagem. Existem pessoas que querem manter o nosso instinto sexual em chamas para lucrar com ele; afinal de contas, não há dúvida de que um homem obcecado é um homem com baixa resistência à publicidade. Deus conhece nossa situação; ele não nos julgará como se não tivéssemos dificuldades a superar. O que realmente importa é a sinceridade e a firme vontade de superá-las.
Para sermos curados, temos de querer ser curados. Todo aquele que pede socorro será atendido; porém, para os cristãos de hoje, até mesmo esse desejo sincero é difícil de ter. Um cristão famoso, de tempos antigos, disse que, quando era jovem, implorava constantemente pela castidade; anos depois, se deu conta de que, quando dizia “ó Senhor, fazei-me casto”, seu coração acrescentava secretamente as palavras: “Mas, por favor, que não seja agora.” Isso também pode acontecer nas preces em que pedimos outras virtudes; mas há dois motivos que tornam especialmente difícil desejar – quanto mais alcançar – a perfeita castidade:
  • a ideia de que todo desejo sexual que sentimos é “saudável” e “natural”;
  • a crença de que seguir a castidade cristã é impossível.
Vamos refletir sobre estes dois pontos a seguir.

Todo desejo sexual que sentimos é “saudável” e “natural”?

Os demônios que nos tentam, a mídia e a mentalidade dominante podem nos levar a pensar que os desejos aos quais resistimos são tão “naturais”, “saudáveis” e razoáveis, e que não faz sentido resistir a eles.
Cartaz após cartaz, filme após filme, romance após romance associam a ideia da libertinagem sexual com as ideias de saúde, normalidade, juventude e bom humor. Essa associação é uma mentira. Como toda mentira poderosa, é baseada numa verdade – a verdade reconhecida pela Igreja de que o sexo (à parte os excessos e as obsessões que cresceram ao seu redor) é algo positivo. A mentira consiste em sugerir que qualquer ato sexual que você se sinta tentado a desempenhar, a qualquer momento, seja saudável e normal.
Isso é estapafúrdio sob qualquer ponto de vista concebível, mesmo sem levar em conta o cristianismo. Para qualquer tipo de felicidade, mesmo neste mundo, é necessário comedimento. Logo, a afirmação de que qualquer desejo é saudável e razoável só porque é forte não significa coisa alguma.

Seguir a castidade cristã é impossível?
Imagine que você está diante de uma prova muito importante. Então, aparece ali uma questão dissertativa muito difícil, e você sabe que está despreparado para respondê-la. O que você faz? Desiste de responder a questão, ou tenta fazer o melhor que puder?
Só uma pessoa muito imbecil deixaria de tentar. Afinal, você poderá somar alguns pontos mesmo com uma resposta imperfeita, mas não somará ponto algum caso deixe de responder. Da mesma forma, devemos agir com a proposta cristã de uma vida casta: mesmo sabendo de nossas limitações, não devemos desistir jamais; devemos fazer o melhor que pudermos.
Pense numa situação ainda mais crítica: você está no mato, quando surge uma onça enorme. Ok, é bem provável que ela te coma. Mas e daí? Vai ficar parado pensando: “sou fraco diante dela, nem adianta resistir”, ou tentará correr, subir numa árvore ou procurar um pau ou pedra pra se defender? Se você reagir, terá alguma chance de viver (há vários casos documentados).

Muitas pessoas se sentem desencorajadas de tentar seguir a castidade porque a consideram impossível (mesmo antes de tentar). Porém, quando uma coisa muito importante precisa ser tentada, não se deve pensar se ela é possível ou impossível; a pessoa deve fazer o melhor que puder. O homem é capaz de prodígios quando se vê obrigado a fazê-los.
A castidade perfeita – como a caridade perfeita – não será alcançada pelo mero esforço humano. Você tem de pedir a ajuda de Deus. Mesmo depois de pedir, poderá ter a impressão de que a ajuda não vem, ou vem em dose menor que a necessária. Não se preocupe. Depois de cada fracasso, levante-se e tente de novo. Muitas vezes, a primeira ajuda de Deus não é a própria virtude, mas a força para tentar de novo.
Por mais importante que seja a castidade, esse processo de treinamento dos hábitos da alma é ainda mais valioso. Ele cura nossas ilusões a respeito de nós mesmos e nos ensina a confiar em Deus. Aprendemos, por um lado, que não podemos confiar em nós mesmos nem em nossos melhores momentos; e, por outro, que não devemos nos desesperar nem mesmo nos piores, pois nossos fracassos são perdoados. A única atitude fatal é se dar por satisfeito com qualquer coisa que não a perfeição.

Portanto, sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito. (São Mateus 5,48)
Para encerrar, apesar de eu ter falado bastante a respeito de sexo, quero deixar tão claro que o centro da moralidade cristã não está aí. Se alguém pensa que a castidade é o vício supremo, essa pessoa está redondamente enganada. Os pecados da carne são maus, mas, dos pecados, são os menos graves. Todos os prazeres mais terríveis são de natureza puramente espiritual: o prazer de provar que o próximo está errado, de tiranizar, de tratar os outros com desdém e superioridade, de estragar o prazer, de difamar. São os prazeres do poder e do ódio.

Isso porque existem duas coisas dentro de mim que competem com o ser humano em que devo tentar me tornar. São elas o ser animal e o ser diabólico. O diabólico é o pior dos dois. E por isso que um moralista frio e pretensamente virtuoso que vai regularmente à igreja pode estar bem mais perto do inferno que uma prostituta. E claro, porém, que é melhor não ser nenhum dos dois.


Fonte: O Catequista